As paixões de Jean-Claude Bernardet, por Heitor Ferraz
(publicado na revista Cásper #42, jan-abr 2026)
Em 2023, Jean-Claude Bernardet publicava Wet mácula, em parceria com Sabina Anzuategui, um livro de memórias, com o subtítulo “memória/rapsódia”. Bernardet, mais uma vez, agitava as águas dos gêneros literários. Contador de histórias épicas, rapsodo de um tempo moderno: do universo do cinema brasileiro, do qual ele fez parte e foi protagonista. Quando morreu, em julho deste ano, aos 88 anos, ele deixava outro livro, outra agitação na superfície dos gêneros: Viver o medo: uma novela pornô-gourmet, também em parceira com Sabina, que foi sua aluna na faculdade de cinema da USP, e é escritora e professora de roteiro na Faculdade Cásper Líbero.
A leitura em conjunto dos dois livros é bastante proveitosa. É como se uma obra fosse o lado A e a outra o lado B de uma vida intensa e dedicada ao cinema – não apenas como pesquisador, mas como ator, produtor e roteirista. Bernardet também teve papel fundamental na criação da Cinemateca Brasileira, da faculdade de cinema da UnB (Universidade de Brasília) e do curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes da USP, do qual foi afastado pelo regime militar e reintegrado apenas nos anos 1980. Na sua extensa produção, vale citar ainda duas importantes narrativas confessionais, como Aquele rapaz (de 1993), sobre seus anos de formação, e A doença, uma experiência (de 1996), em que registra o momento em que descobriu que era soropositivo e estava com aids.
Em Wet mácula (referência a uma doença ocular que lhe tirou a visão no final da vida), cujo projeto surgiu com a editora Heloisa Jahn (que infelizmente morreu antes de ver o livro pronto, cabendo à Sabina dar a versão final), Bernardet traça sua trajetória pessoal e profissional, sempre trabalhando com fragmentos de memória, sem uma rígida ordem cronológica. Como ele mesmo diz, uma obra construída por “irradiação”, fazendo com que os assuntos – seus anos de formação na França, a chegada difícil no Brasil, a relação conflituosa com pai e madrasta, ou os anos de ditadura e festivais de cinema – surjam a partir de circunstâncias, como acontece com a própria lembrança, juntando cenas e situações de diversos momentos.
Paralelamente, a construção dessa narrativa experimental também passa a ser tema dos protagonistas, durante os diálogos vivos e provocativos entre ele e sua amiga Helô (que foi sua editora na Brasiliense e na Companhia das Letras). A certa altura, ele diz: “Não sei se as minhas paixões fazem parte do livro. Não é um livro confessional. É exatamente o contrário: são imagens que estamos construindo. Se essas imagens tiverem uma aparência suficientemente audaciosa, funciona bem como biombo pra não apresentar outros aspectos”. E é justamente esse biombo que é retirado em Viver o medo, que trata, principalmente, da vida sexual de Bernardet, mas com a capa do pseudônimo. Ele passa a ser Thomas, e Sabina, chamada a ajudá-lo neste novo projeto, surge como Milena, sua ex-aluna.
A técnica narrativa é a mesma – a da irradiação –, mas o tema agora é a vida sexual e amorosa dos protagonistas, principalmente de Thomas, já que Milena, mesmo instigada por ele a contar suas história (“Seu personagem precisa crescer”, insiste ele), se mantém reticente, e assume o papel de quem pesquisa, vasculha artigos e referências citadas, para ativar a memória do ex-professor. Duas gerações de pesquisadores que entabulam uma relação de admiração e provocação (característica presente na vida do intelectual Bernardet): ele saído do caldeirão de experiências dos anos 60, que envolvia liberdade sexual e crença na capacidade revolucionária da arte; e ela, fruto do período pós-ditadura, quando os ventos da liberdade e a própria utopia da geração 60 refluíram diante da estupidez do vale-tudo do neoliberalismo.
A beleza do encontro nasce da sinceridade desse contraste, de como cada um enfrenta, no fundo, seus medos. Thomas, que sempre teve uma vida sexualmente agitada (“cuecas tensas”, como ele descreve, nas cenas de sexo), teme a impotência – e agora se vê diante desse problema depois de uma operação de próstata, e procura recuperar a lembrança dos momentos de gozo amoroso ou simplesmente circunstancial. Além deste medo, o livro, como diz Thomas, não pretende ser um relato da vida gay dos anos 60 e 70, mas, fala: “Para mim, este é um livro metafísico”. A frase fica no ar, deixando ao leitor o trabalho de interpretá-la, seja pela via do relato do cotidiano de um velho, da busca constante do sentido da sua existência, seja pela sua atitude sempre irrequieta e provocadora, agitando o coro dos contentes, e incorporando, nessas vivências intensas, o próprio medo, até o último sopro de vida.
por Heitor Ferraz

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